As previsões de especialistas e produtores sobre a pecuária de corte este ano no Brasil não apontam exatamente para a mesma direção. Enquanto os analistas de mercado acreditam em dias melhores para o setor, os pecuaristas estão bem mais cautelosos em relação a investimentos e à retomada do preço da arroba do boi gordo.
Nos dois casos, o resultado ruim do ano passado, quando a crise internacional prejudicou os negócios, as cotações caíram e, sem crédito, vários frigoríficos entraram em processo de recuperação judicial, tem forte influência nas projeções. Dados da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) mostram que, em janeiro de 2009, a arroba do boi gordo, com pagamento à vista, valia R$ 74,38 no Estado. No mês passado, o preço médio da arroba ficou em R$ 68,52, o que indica uma queda de R$ 5,86 em cada arroba.
O professor Sergio De Zen, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), diz que é possível pensar em um ano melhor para a pecuária de corte. A economia brasileira começa a registrar uma recuperação e, explica ele, a demanda interna em um ano eleitoral deve crescer, já que a circulação de dinheiro provavelmente será maior. “O mercado interno deve ser mais firme em 2010, o que tem reflexos positivos no preço da arroba.”
De acordo com o professor, 2009 seria o ano em que os pecuaristas deveriam colher os bons resultados dos investimentos feitos em 2008 e 2007. O problema é que, no ano passado, a oferta de animais estava em alta e a demanda, enfraquecida - um dos reflexos da crise financeira mundial.
O presidente da Comissão de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antenor Nogueira, acredita que o preço da arroba do boi não sofrerá grandes oscilações nos próximos meses. Segundo ele, o valor da arroba deve ficar próximo do patamar atual, entre R$ 70,00 e R$ 75,00. “Também acho que no segundo semestre o Brasil vai voltar a exportar mais carne”, diz Antenor Nogueira.
Efeito da crise
Dados da Scot Consultoria apontam que, em outubro de 2008, quando começou a crise, o preço médio mensal da arroba do boi gordo em São Paulo (praça usada como referência no mercado nacional) era de R$ 89,76. Neste mês, a média mensal na mesma região está em R$ 75,36. Isso indica que, desde o começo da crise mundial, o preço da arroba caiu 16%. O Mato Grosso do Sul foi o Estado que mais sofreu com a turbulência - por lá, o recuo chegou a 19% no mesmo período.
“Essa queda no preço da arroba do boi foi maior do que a verificada em 2005, quando foram identificados focos de febre aftosa no Mato Grosso do Sul. Naquela época, quando a arroba do boi chegou ao seu patamar mais baixo, o recuo foi de 12%”, explica a consultora Lígia Pimentel, da Scot. Vale lembrar que, em julho de 2008, também levando em consideração a média mensal de preços em São Paulo, a arroba do boi gordo atingiu cotação recorde, de R$ 90,51.
“O pecuarista precisa controlar custos, saber quanto custa produzir cada arroba de carne. Mas, na realidade, ele não pode ficar com medo de investir. O importante agora é que esse investimento seja planejado de acordo com a capacidade do mercado”, defende o professor Sergio De Zen.
Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados no Estado de Goiás (Sindicarne), José Magno Pato, todas as negociações vão depender do comportamento do câmbio. Se houver uma desvalorização do real, segundo ele, podem ocorrer reajustes no preço da arroba do boi. “As outras variações serão pequenas, em razão da entressafra. Acredito que a arroba deva oscilar entre R$ 70,00 e R$ 72,00 nos próximos meses”, diz. Magno Pato também defende que a expansão da demanda externa por carne, em especial no segundo semestre, deve trazer boas notícias para o setor.
De janeiro a dezembro de 2009, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com a queda nas vendas externas de carne bovina e uma quantidade maior do produto destinada ao mercado interno, o preço da carne caiu 5,32% no País - fato que não se repetirá este ano.
O economista André Braz, da FGV, explica que o avanço da demanda por carne bovina deve fazer com que o consumidor final pague um pouco mais pelo produto ao longo deste ano. “Haverá espaço para aumento de preços, mas nada que provoque uma restrição no consumo”, destaca.(Fenanda Guirra - O Popular)
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