Com o fim da colheita na América do Norte, a atenção se volta para o Hemisfério Sul, mais exclusivamente, Brasil e Argentina. De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a safra americana de soja é de 91,47 milhões de toneladas, superando com sobras a safra recorde 2006/07, que foi de 87 milhões de toneladas. O Brasil deve colher também uma safra recorde de soja. As previsões indicam uma safra de mais de 65 milhões de toneladas. A Argentina segue a mesma tendência e deve produzir aproximadamente 53 milhões de toneladas.
Desta forma, é previsto que a oferta global desta oleaginosa chegue a 253 milhões de toneladas, um acréscimo de 20% em relação à safra passada que foi de 210,86 milhões de toneladas. Este desempenho se dá pelo bom clima nas regiões produtoras e o incremento de tecnologia que fizeram com que as produtividades se elevassem. Além disso, sinais claros de que a crise que assolou as economias globais não influencia mais o consumo, animaram os produtores que buscaram aumentar as áreas cultivadas de soja.
Toda esta oferta pressiona o mercado futuro na bolsa de Chicago (Chicago Board of Trade) e com certeza vai refletir no preço físico da soja no início da comercialização da safra aqui no Brasil. Além deste aumento de produção, é esperado um adiantamento na colheita, já que os produtores brasileiros semearam mais cedo suas lavouras devido à antecipação das chuvas. Esta antecipação deve proporcionar um pico de comercialização da safra a partir de fevereiro. Sendo assim, a partir deste período o preço físico da soja deve começar a sentir a pressão pelo aumento de oferta.
O que deve dar suporte a esta queda é o apetite de compra da China (maior consumidor global de soja), que desde o início da safra americana tem aumentado demanda. Este alto volume de compra traz um contra peso na relação oferta/demanda, o que não permite reduzidas perdas nas posições do mercado futuro, que é considerado normal num cenário de alta oferta.
A China é o principal destino das exportações de soja no mundo. Os aumentos das exportações americanas para a China cresceram até o momento, mais de 50% em relação a mesmo período do ano passado. Há ainda a influência da quebra da safra Argentina, que no ano passado fez com que os chineses buscassem soja no período de entressafra nos Estados Unidos (EUA).
Entre os meses de setembro e dezembro de 2009, a China comprou dos americanos 12,9 milhões de toneladas, um acréscimo de 4,76 milhões de toneladas em relação ao mesmo período do ano passado, que foi de 8,14 milhões de toneladas. Espera-se que os compradores asiáticos transfiram suas atenções e suas compras para o Brasil e Argentina.
Tal afirmação ainda pode ser confirmada no potencial de compra da China. De acordo com o USDA, o país asiático deve importar 42 milhões de toneladas até setembro de 2010. Até a segunda semana de janeiro, a China importou dos EUA pouco mais de 20 milhões de toneladas. Sendo assim, é esperado que os chineses comprem nestes próximos meses 22 milhões de toneladas, onde grande parte desta compra deve ser feita no Brasil e Argentina.
Vale ressaltar que este levantamento é uma previsão e que qualquer mudança na economia chinesa e/ou mundial pode causar impacto nestes números. Todo este cenário de oferta e demanda traz certa preocupação em relação aos preços que serão praticados na comercialização da safra brasileira. Contudo, um suporte pode ser traçado devido, principalmente, ao consumo chinês.
O produtor deve ficar atento aos preços praticados no mercado, analisando as variações das cotações diárias e sua relação com a oferta e a demanda, assim como as variações cambiais. Chegou o período de se fazer as contas, conscientizar de que a rentabilidade não será a mesma que da safra passada e que, se tudo mantiver na normalidade, os melhores preços deverão ser praticados no início de fevereiro, reduzindo com aumento da oferta. Porém, estes não devem ser tão pessimistas como era previsto. (Leonardo Machado é engenheiro agrônomo e assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás - Faeg)
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